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O calor extremo pode parar a inteligência artificial?

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A expansão acelerada da inteligência artificial trouxe um novo desafio para o setor de infraestrutura: manter data centers operando mesmo em meio ao avanço de eventos climáticos extremos. Ondas de calor, enchentes, incêndios florestais e ventos intensos são alguns dos principais fatores de risco para essas instalações, colocando redes elétricas sob pressão e elevando custos operacionais. A onda de calor na Europa chamou atenção para o assunto e passou a preocupar seguradoras e empresas de tecnologia. Isso porque, enquanto a população enfrenta temperaturas recordes, operadores de data centers lidam com o desafio de resfriar chips cada vez mais potentes e manter a infraestrutura funcionando sem parar. Para piorar a situação, o uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado também sobrecarrega as redes de energia, elevando o risco de apagões. E, nesses casos, todo mundo para: desde os sistemas de refrigeração até os data centers que alimentam a inteligência artificial. O Olhar Digital consultou especialistas para entender o impacto dos eventos climáticos extremos no setor de inteligência artificial – e vice-versa. Para Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP, a tendência é que esse cenário se intensifique nos próximos anos. Segundo ele, os efeitos das mudanças climáticas não devem atingir apenas os data centers, mas toda a cadeia de geração e distribuição de energia. Não há a menor dúvida de que os eventos climáticos extremos, como ondas de calor, enchentes e tempestades severas, vão afetar cada vez mais todos os sistemas produtivos da geração ao uso de energia. Nesse sentido, os data centers estão em uma posição privilegiada, pois são enormes consumidores de eletricidade e também de água para refrigeração dos supercomputadores. Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP ONU já alertou: data centers de IA consomem grandes volumes de energia e água – Imagem: Junayed graphics/Shutterstock Expansão para novos mercados Artaxo afirma que a vulnerabilidade dessa infraestrutura tende a crescer. Para ele, interrupções no fornecimento de energia e a disponibilidade de água para resfriamento devem influenciar, inclusive, a escolha dos locais onde novos data centers serão instalados. Já segundo Patrick McBride, chefe de Construção Internacional da Zurich, os eventos climáticos severos deixaram de ser uma preocupação secundária para quem investe em infraestrutura digital: Nos últimos três anos, fenômenos climáticos extremos passaram a representar a principal causa de perdas da seguradora Zurich; De acordo com McBride à CNBC, o portfólio de riscos relacionado à construção de data centers nos Estados Unidos já responde por cerca de um terço dos prejuízos da companhia; O executivo explicou que muitos novos empreendimentos estão sendo construídos em regiões suburbanas e rurais, onde os terrenos são mais baratos; Mas esses locais também têm riscos. Um estudo da empresa de análise climática First Street revelou que 79% da capacidade global de data centers está exposta a riscos elevados de desastres naturais agudos, como enchentes, incêndios florestais e ventos extremos. Além de interromper operações, esses eventos podem elevar custos com seguros, manutenção e reparos. A necessidade de considerar fatores climáticos na escolha da localização também é destacada por André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil. Segundo ele, os eventos extremos deixaram de ser um risco secundário e passaram a fazer parte do planejamento estratégico das empresas. De acordo com o especialista, critérios como risco de desastres naturais, disponibilidade de energia, acesso à água e resiliência da rede elétrica já influenciam a seleção dos locais onde novos data centers serão construídos. Além disso, cresce o investimento em sistemas redundantes, microgrids, geração própria de energia e novas soluções de refrigeração para aumentar a continuidade das operações. O calor pressiona data centers – e a rede elétrica André Flávio explicou que o desafio vai além de garantir eletricidade suficiente para alimentar os servidores. Segundo ele, dissipar o calor gerado pelos equipamentos tornou-se um dos principais obstáculos técnicos da nova geração de data centers. Durante ondas de calor, afirmou o especialista, os sistemas convencionais de refrigeração podem atingir seus limites operacionais, enquanto temperaturas mais elevadas fazem os equipamentos de climatização consumirem ainda mais energia. Ao mesmo tempo, muitas tecnologias de resfriamento dependem de água, recurso que pode se tornar escasso em regiões afetadas por secas. Flávio acrescentou que os racks voltados para IA concentram cada vez mais potência em espaços reduzidos, criando pontos críticos de temperatura que exigem monitoramento em tempo real. A tendência é que eficiência energética, gestão térmica e segurança do fornecimento de energia se tornem tão importantes quanto a própria capacidade computacional dos data centers. André Flávio, Head de Engenharia, Pesquisa e Desenvolvimento em Energia da Capgemini Brasil No calor, uso simultâneo de sistemas de refrigeração e data centers pressiona redes elétricas – Imagem: west cowboy/Shutterstock Regulação e fontes renováveis Além do desafio operacional, o crescimento dos data centers também levanta preocupações ambientais. Segundo Artaxo, projeções indicam que essas instalações poderão consumir cerca de 10% de toda a eletricidade produzida no planeta nos próximos anos. Para o pesquisador, esse avanço exige regulamentação. “Nós temos que regular e controlar essa atividade, que é intensiva em recursos naturais do nosso planeta”, destacou. Na avaliação do professor, alimentar data centers com fontes renováveis deve ser um dos pilares dessa estratégia. Na verdade, um dos aspectos da regulação é obrigar os data center a serem resfriados e a serem alimentados eletricamente com energias renováveis, como solar e eólica. Isso seria muito bom pra sociedade global como um todo. Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP Empresas adaptam projetos para enfrentar temperaturas mais altas Diante desse cenário, empresas do setor já começam a revisar o projeto de novas instalações. A Microsoft informou à CNBC que desenvolve data centers para operar de forma confiável sob diferentes condições ambientais, utilizando critérios como escolha criteriosa do local, sistemas redundantes e monitoramento em tempo real para reduzir riscos associados ao calor extremo e a outros eventos climáticos. A Nvidia também anunciou recentemente avanços voltados à eficiência energética. Seus novos servidores de inteligência artificial passam a operar com líquido refrigerante a até 45 °C (acima das temperaturas utilizadas anteriormente). Segundo a empresa, aumentar em apenas um grau a temperatura do sistema de resfriamento pode reduzir em aproximadamente 4% os custos de energia destinados à refrigeração. Ondas de calor e outros eventos climáticos extremos já afetam data centers – Imagem: Quality Stock Arts/Shutterstock Para André Flávio, entretanto, apenas migrar para energia renovável não será suficiente para reduzir o impacto ambiental da inteligência artificial. De acordo com ele, a sustentabilidade precisa fazer parte do projeto dos data centers desde sua concepção. O especialista afirma que as empresas precisarão investir simultaneamente em sistemas de refrigeração mais eficientes, armazenamento de energia, arquiteturas resilientes e na escolha de regiões com maior disponibilidade de energia limpa e menor estresse hídrico. “A sustentabilidade precisa ser tratada como um requisito de projeto e operação, e não apenas como uma questão de suprimento energético”, destacou. Artaxo vai além e defende que a expansão acelerada dos data centers exige limites. Segundo ele, o consumo crescente de energia e água já levou algumas regiões dos Estados Unidos a restringirem novas instalações. Para o pesquisador, a ideia de que a inteligência artificial compensará seu próprio impacto ambiental ao aumentar a eficiência de outros setores é uma falácia. Nós temos que reduzir o consumo de água e de eletricidade de data centers do mundo inteiro, porque obviamente esses data centers funcionam globalmente. Temos que escolher cuidadosamente onde instalá-los com o menor impacto ambiental possível. Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP O post O calor extremo pode parar a inteligência artificial? apareceu primeiro em Olhar Digital.
Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
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