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Talentos invisíveis nas pistas: o Brasil ainda tropeça em identificar seus campeões

Talentos invisíveis nas pistas: o Brasil ainda tropeça em identificar seus campeões

Existe um corredor de elite escondido em alguma periferia brasileira que nunca pisou numa pista oficial. Ele treina descalço no barro, bate recordes nos fundos de quintal e não sabe que seu VO₂ máximo provavelmente deixaria pra trás a maioria dos atletas federados. A história parece ficção, mas é quase certa — porque o Brasil nunca montou um sistema sério para garimpar esses talentos. E o que vale para a escola, vale dobrado para o esporte.

A discussão em torno de um novo projeto de lei que busca aprimorar a identificação de pessoas superdotadas no país acende também um alerta para o universo das corridas e do atletismo. No Brasil, estima-se que entre 3% e 5% da população tenha algum grau de superdotação — intelectual ou motora —, mas a esmagadora maioria jamais é detectada por falta de protocolos adequados, acesso a avaliações especializadas ou simplesmente por nascer no lugar errado. No esporte de resistência, onde o talento natural convive com anos de dedicação, essa lacuna custa medalhas, recordes e histórias que o mundo nunca vai conhecer.

Países que dominam o atletismo de longa distância, como Quênia e Etiópia, não têm apenas corredores extraordinários por acaso genético — eles desenvolveram, ao longo de décadas, uma cultura de identificação precoce de talentos motores, integrada à rotina escolar e comunitária. No Brasil, o caminho ainda é tortuoso: a maioria dos corredores de elite chega ao alto rendimento por conta própria, por um professor atento ou por pura teimosia. A ausência de um programa nacional estruturado faz com que o talento precise gritar muito alto para ser ouvido.

A proposta legislativa em discussão no Congresso pode ser um primeiro passo para mudar essa lógica, ao criar mecanismos mais abrangentes de triagem e suporte. Para o esporte, isso significa potencialmente integrar avaliações de capacidade física e motora desde o ensino fundamental, criando pontes entre a escola, os clubes e as federações. Não se trata de transformar toda criança ágil num atleta profissional, mas de garantir que quem tem um dom fora do comum tenha, ao menos, a chance de descobri-lo.

Enquanto o projeto percorre os trâmites legislativos, técnicos, preparadores e entusiastas do esporte têm um papel imediato: olhar ao redor. O próximo grande corredor brasileiro pode estar na fila do ônibus, no campinho de terra batida ou chegando sozinho em primeiro numa corrida de bairro sem cronômetro. Identificar, acolher e dar estrutura a esses talentos não é luxo — é a única forma de o Brasil parar de correr atrás do próprio potencial.

Artigo originalmente publicado em saude.abril.com.br
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