Sete décadas após Orson Welles filmar as primeiras cenas, um grupo de arquivistas europeus voltou a mirar um dos sonhos mais famosos e mais inacabados da história do cinema: levar Don Quixote às telas do jeito que o cineasta imaginou.
A iniciativa reúne instituições da França, da Espanha e da Itália, além do Museu do Cinema de Munique, na Alemanha. A aposta é que o acervo disperso entre esses países, somado a cerca de 30 horas de imagens preservadas, seja suficiente para montar uma versão que chegue o mais perto possível da intenção original de Welles.
O projeto ganhou um apoio decisivo de Oja Kodar, parceira e colaboradora do diretor, que autorizou o avanço dos trabalhos. Para os envolvidos, a bênção de quem esteve perto do processo criativo é uma peça importante em uma missão marcada por restauração, pesquisa e muitas lacunas.
Welles deixou uma longa lista de obras fragmentadas e mitificadas, mas Don Quixote ocupa um lugar especial nessa coleção de promessas interrompidas. Agora, a ideia dos arquivistas não é apenas restaurar material antigo, e sim tentar organizar, contextualizar e dar forma a um filme que atravessou gerações como lenda e curiosidade cinéfila.
Se a empreitada der certo, o resultado pode oferecer ao público algo raro: a chance de ver, mesmo tardiamente, um capítulo inacabado da filmografia de um dos autores mais inventivos do século 20. No mínimo, o trabalho deve reacender o debate sobre preservação, direitos autorais e o papel dos arquivos na reconstrução da memória do cinema.